
Tempestades de poeira que cobriram o céu do país alertam sobre o aquecimento global
Fenômeno intenso criou nuvens de fumaça e assustou moradores de diversas regiões do Brasil
por Clima em Ação. Publicado em 29 de outubro de 2021

Nuvem de poeira cobriu Uberaba em Minas Gerais. Foto por Rodrigo Garcia
No final de setembro de 2021 um fenômeno assustou milhares de brasileiros das regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Moradores viram o dia escurecer quando enormes nuvens de fumaça avermelhadas cobriram o céu das cidades.
A nuvem de poeira que chegou aos céus brasileiros é conhecida por ser um evento climático decorrente de partículas de pó e foi responsável por causar fortes ventos, acidentes de trânsito, transportes inviabilizados e até mesmo óbitos.
Formada por poeira acumulada pelo solo seco desmatado que se une com a falta de chuva e restos de fuligem das queimadas, as nuvens crescem e viram uma forte tempestade. Fatores climáticos naturais da região, como a velocidade do vento, também são agravantes.
“Desde criança lembro dessas tempestades, mas de uns anos pra cá elas tem se tornado cada vez mais frequentes. Essa tempestade foi um pouco diferente das outras, porque a nuvem estacionou sobre a cidade”, conta o fotógrafo Rodrigo Garcia que mora em Uberaba, Minas Gerais e presenciou uma tempestade de poeira. “Lembro de ter saído bem cedo para caminhar e o céu estava todo coberto de poeira e ficou assim durante quase toda a manhã”, finaliza.
Relatórios do IPCC já haviam alertado sobre o aumento das catástrofes climáticas com o não enfrentamento do aquecimento global. As nuvens de poeira são consequências diretas das mudanças climáticas, como a forte intensificação de queimadas e o desmatamento excessivo ocorridos no Brasil nos últimos dois anos.
O modelo agrícola adotado no Brasil também é responsável pela formação desse evento e observa-se que as regiões afetadas pelo fenômeno registram baixos números de cobertura florestal e muitos terrenos agrícolas desmatados para agropecuária ou cultivo.
A relação do agronegócio com as tempestades de poeira ocorre devido aos grandes latifúndios de monocultura (o processo de produção industrial agrícola de apenas um tipo de produto) que ocasiona o desmatamento de enormes áreas e consequentemente afeta a biodiversidade do local, como o desaparecimento das espécies.
O desmatamento de uma área faz com que o solo perca capacidade de absorção e infiltração de água, tornando-se seco e com isso, os ventos fortes com poeiras passam a acontecer com mais frequência.
Marcos, coordenador da Ong Vida & Surf explica que as queimadas deixam as regiões com fuligem e vegetação destruídas e essa junção de destroços é movimentada pelos ventos que se espalham. Portanto, esses fenômenos ambientais, quando reunidos à falta de chuva, criam grandes ondas de secura.

Nuvem de poeira cobriu Uberaba em Minas Gerais. Foto por Rodrigo Garcia


As queimadas ocorrem com frequência pela ação humana que costuma queimar a terra para “limpar” o solo a ser usado e, assim, quanto mais seco o solo, mais fácil se alastrar o fogo. Podemos exemplificar essa ação com as queimadas na Amazônia que atingem outras partes do país e causam desequilíbrio entre as cidades.
“Em diversas partes do planeta, incluindo o Brasil, há um agravamento de ações que ocasiona o aumento das ocorrências e da intensidade das tragédias ambientais”, explica Isis Bergonci, da ONG Youth Climate Leaders. “A relação com o aquecimento global é porque quanto mais queimada, mais carbono na atmosfera, mais desmatamento, mais poeira e menos umidade. Além disso, a temperatura da terra aumenta ano após ano e a transpiração da floresta liberada pelas árvores são prejudicadas”, finaliza.
As nuvens de fumaça chamaram a atenção pela frequência das ocorrências em território brasileiro e o cenário tende a se agravar ou se repetir caso a Amazônia não se recupere e as queimadas e secas intensas continuem.
Isis também conta que segundo o relatório AR5 de 2014 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as tragédias ambientais tendem a potencializar problemas de saúde preexistentes.
Para a OMS (Organização Mundial da Saúde), a expectativa é que os custos anuais dos impactos da mudança do clima sobre a saúde sejam da ordem de 2 a 4 bilhões de dólares, entre 2020 e 2030. No relatório publicado em outubro de 2021, dados mostram que cerca de 5 milhões de pessoas morrem por ano em decorrência da poluição do ar.

A poluição diminuiu durante a pandemia?
Relatório publicado pela ONU (Organização das Nações Unidas) informou que não houve recuperação verde e nem diminuição das emissões de gases poluentes durante a pandemia e que a crise climática continua acelerando. Esse dado abre ainda mais possibilidades para comprovar que as tempestades de poeiras podem continuar ocorrendo em detrimento às consequências do aquecimento global nos próximos anos se a desertificação de áreas por meio de queimadas e desmatamentos não for barrada e a poluição aumentar.
Nuvem de poeira cobriu Uberaba em Minas Gerais. Foto por Rodrigo Garcia
Informações obtidas em Árvore Ser Tecnológico e Youth Climate Leader
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