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A voz das ONGs em meio à crise climática

Conheça a opinião e a atuação de três ONGs brasileiras no enfrentamento ao aquecimento global
por Clima em Ação. Publicado em 30 de outubro de 2021
Com o crescente negacionismo acerca das consequências do aquecimento global no país, o papel de conscientização e atuação fica muito concentrado em soluções propostas por ONGs ambientais. As ONGs (organizações não governamentais) são entidades privadas sem fins lucrativos, com o propósito de defender e atuar em prol de causas políticas, sociais, ambientais ou na conscientização e enfrentamento de pautas ignoradas pelas camadas legislativas e políticas da sociedade.

Confira a atuação e a opinião sobre a atual emergência climática de participantes de 3 ONGs brasileiras: Victor Carvalho do Clima de Mudança, Sérgio Besserman do Climate Reality e Mirela Coelho do Engajamundo, que atuam na frente ambiental com o foco em conscientizar e diminuir as futuras consequências do aquecimento global.

O que é o Clima de Mudança e como surgiu a iniciativa?

Clima de Mudança: Somos um movimento estudantil que tem como objetivo desenvolver e popularizar soluções para a crise climática no Brasil com base no engajamento dos universitários. Realizamos eventos com especialistas, políticos e outros atores para aumentar a conscientização sobre essa pauta. Estamos desenvolvendo um projeto sobre finanças sustentáveis que terá como objetivo pensar soluções para descarbonizar o setor financeiro de forma vantajosa para todas as partes. Além disso, temos um outro projeto voltado para o desenvolvimento de uma campanha para tornar as universidades brasileiras neutras em carbono. Acreditamos que essa é a grande luta da nossa geração, e que só é possível vencê-la através do engajamento dos jovens e da ocupação dos espaços civis e políticos no Brasil. 

O que pode ser feito para frear o avanço das mudanças climáticas? Ainda dá tempo?

CM: Ainda há tempo de evitar que o planeta chegue nesse ponto por meio da ação climática imediata. Para evitar uma catástrofe climática nos próximos anos é necessário que os governantes das nações cumpram de fato com metas mais ambiciosas de corte de emissões nacionais de carbono. O Brasil, por exemplo, poderia reduzir significativamente suas emissões com um sistema mais efetivo de combate ao desmatamento e queimadas, visto que a maioria das emissões brasileiras decorre de mudanças no uso dos solos. Além disso, a pressão popular é fundamental para desmontar a inércia governamental quanto a ação climática.

Quais são as soluções para a crise climática que o Clima de Mudança sugere como foco educacional?

CM: O grande obstáculo para a ação climática de forma ampla é que o seu entendimento não é trivial. Essa complexidade dificulta a disseminação do senso de urgência e abre brechas para o negacionismo. Por isso, é fundamental incluir a ciência das mudanças climáticas nos currículos escolares, para que os alunos estejam em contato com esse problema desde pequenos.

Observa-se uma negligência do governo nas questões climáticas. Como este fato é refletido nas tragédias climáticas?

CM: A negligência bolsonarista diante dos problemas ambientais e climáticos do Brasil têm impactos práticos, diretos e muito graves. Parte dessa negligência vem de um aspecto ideológico negacionista e conspiratório. O resultado de todo esse negacionismo é que as pessoas que lucram com a destruição das florestas se sentiram legitimadas para intensificar as atividades predatórias. Com o afrouxamento da legislação ambiental, as punições deixaram de ser uma ameaça. As consequências de negar a crise climática serão catastróficas.

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Como funciona a atuação do Engajamundo na crise ambiental?

Engajamundo: O Engajamundo é uma organização de liderança jovem e feita para jovens. Acreditamos na importância da atuação da juventude para enfrentar os maiores problemas ambientais e sociais do Brasil e do mundo. Buscamos mobilizar e fortalecer juventudes de todas as partes do Brasil, dar ferramentas para que elas se comuniquem, tragam suas demandas e perspectivas e se somem à luta por um mundo mais justo e equilibrado em termos socioambientais.

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Em 2020, o relógio metronome em Nova York mostrou o exato tempo em que o aquecimento global se tornará irreversível: 7 anos. O que pode ser feito para frear o avanço das mudanças climáticas? Ainda dá tempo?

E: As temáticas de mudanças climáticas e aquecimento global ainda estão muito distantes da maioria das pessoas, e no dia a dia elas não parecem tão importantes e urgentes. Então, o primeiro passo é abrir os olhos para o que acontece à nossa volta e se informar. É preciso entender que as mudanças que precisamos não virão com a mudança de hábitos individuais, mas sim com um movimento coletivo de pressão aos governos mundiais e aos setores que mais poluem. Uma outra forma é apoiar movimentos que já existem. No Brasil existem inúmeras iniciativas em prol de um planeta mais justo e equilibrado, mas grande parte desses projetos e organizações recebem pouco apoio da sociedade como um todo. E sim, ainda dá tempo de agir contra a crise climática, mas precisa ser agora.

 

Os recentes estudos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) mostram que é urgente zerar as taxas de desmatamento e as emissões de gases do efeito estufa através da utilização dos combustíveis fósseis. Nesse sentido, o movimento de diversificar a matriz energética mundial com fontes mais sustentáveis e adotar ações de reflorestamento e combate às mudanças no uso da terra é muito importante. É necessário que os países desenvolvidos adotem metas mais ambiciosas de redução de emissões e dêem amparo para que os países em desenvolvimento façam o mesmo.

As temáticas de mudanças climáticas e aquecimento global ainda estão muito distantes da maioria das pessoas. Como perceber que estamos vivendo um período de urgência da crise climática? 

E: Para perceber que está vivendo em um momento de crise climática, o cidadão deve se afastar da imagem de um urso polar em cima de um bloco de gelo e procurar indícios em seu entorno. Aquele rio que ele brincava na infância e hoje está seco, as temperaturas nunca registradas antes no lugar em que vive, o estranho excesso ou falta de chuvas naquela época do ano.

Quais são as soluções para a crise climática que vocês sugerem como ponto educacional?

E: Dentro da educação climática, especialmente para crianças e adolescentes,  deve ser incluído o tema dentro da realidade daquela pessoa. Se a pessoa com quem você vai falar sobre a crise climática é da Bahia, traga algum impacto da crise climática na Bahia. O mundo do ativismo climático ainda é majoritariamente branco, velho, rico e do norte global, entretanto, temos vários exemplos de pessoas negras, mulheres, jovens e periféricas no movimento climático e devemos dar destaque a essas pessoas. 

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Como surgiu o Climate Reality Brasil?

Climate Reality Brasil: O Climate Reality Brasil  é um desdobramento brasileiro do Climate Reality, fundado pelo ganhador do prêmio Nobel e jornalista Al Gore. São diversas sedes e iniciativas ao redor do mundo com foco nas mudanças climáticas. Nossa atuação se baseia no engajamento dos Líderes da Realidade Climática (voluntários da rede). Nosso foco principal é a educação climática para os jovens.

Quais são os impactos do aquecimento global para o Brasil? Podemos mapear como será o futuro do mundo se as mudanças climáticas não forem barradas?

CRB: Sim, é possível mapear parte do futuro no pior cenário (o imobilismo contra o aquecimento global) e os impactos são nas vidas humanas, bem-estar das populações, agravamento das injustiças sociais, destruição de biomas, extinção de espécies e muito mais. Para o Brasil há possíveis cenários para as diversas regiões, como a transformação do semiárido nordestino em deserto. Mas depende sempre de quanto a humanidade vai realmente enfrentar o problema.

Qual é o perigo do negacionismo climático ao afirmar que o aquecimento global não é realmente uma ameaça?

CRB: O perigo é gigante e a atitude do governo brasileiro atualmente é inaceitável.  Perigo físico, por exemplo, as queimadas na Amazônia intensificam muito o risco da crise hídrica, acentuando um impacto das mudanças climáticas. Perigo econômico, porque o Brasil, ao invés de aproveitar uma oportunidade e sair na frente na transição para o baixo carbono, pode ficar para trás e perder muita competitividade. E, principalmente, perigo social, ao aumentar a vulnerabilidade dos que já sofrem pela desigualdade de renda e outras formas discriminação, como gênero, racismo e formas brutais de exclusão e intolerância.

*As entrevistas foram realizadas entre setembro e outubro de 2021, antes de serem publicadas no site para avaliação.
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